Levantando a arquibancada!

Autores de novelas vivem ouvindo a pergunta: a novela acabou? o futuro serão as séries? Não. A novela não acabou: o futuro serão as boas séries e as boas novelas: A boa dramaturgia, enfim.

Além do Tempo está aí, emocionando as ruas e as redes sociais, para provar que o gênero continua vivíssimo, e que por mais que se embrulhe pra presente, é somente dentro das regras clássicas do folhetim que se consegue esse efeito, de unir classes sociais e níveis culturais tão diferentes num mesmo coração.

Sem pretender disfarçar os truques do gênero, Beth Jhin ousou e causou. Alem do Tempo já é um classico!

Parabens, Beth! parabens Papinha! parabéns ao elenco, à produção, à técnica, a todos os que participaram desse belo momento da nossa dramaturgia!

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Culturas exóticas

livro Bianca

Escuto muito dizerem que algumas de minhas novelas abordaram “culturas exóticas”. Ainda que o termo seja preconceituoso e equivocado para definir qualquer cultura, de maior ou menor expressão no cenário mundial, no caso aqui estamos falando de muçulmanos e hinduístas, culturas presentes e atuantes na política e na economia do mundo em que vivemos.

Porque “exóticas”, então? porque são diferentes de nos. Isso tem nome: etnocentrismo. Vem do grego Ethos -conjunto de hábitos e crenças de uma comunidade- e de centrismo -centro. Trocando em miúdos: nossa maneira de ver e de viver é a correta, a lógica, está no centro. O que é diferente dela vai para a prateleira do “exótico”.

Bom lembrar que do ponto de vista de muitas outras culturas, os “exóticos” somos nos! que o diga Hollywood! 🙂

Por isso lembrei desse livro. Bianca Freire-Medeiros é professora da USP e foi minha pesquisadora em Caminho das Indias. Nesse trabalho ela fala sobre como Hollywood  nos retratou do ponto de vista do etnocentrismo da  cultura americana. Vale a pena ler e refletir.

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Eu não sou cachorro nããããooo…

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Não é engraçado que sendo o animal mais mimado pelos humanos os cachorros geralmente apareçam nas letras das canções como representação dos humilhados e ofendidos?

Waldick canta:
eu não sou cachorro não / pra viver tão humilhado
eu nao sou cachorro não para ser tão desprezado…

Silvio Caldas, na clássica serenata:
dorme junto a teus pés o meu ciúme
enjeitado e faminto como um cão

Cazuza:
pelos dias de cão, muito obrigado

Nos ditos populares,nem se fala! as tão exaltadas qualidades dos cães convivem lado a lado com o significado inverso: cachorro é gente safada e sem vergonha, canta o Babado Novo.

E todo mundo entende o que seja dia de cão, mundo cão, vida de cão, gênio
de cão -apesar de quase ninguém nesse mundo conseguir resistir aos encantos de um cãozinho!

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Caminho das Indias: casamentos arranjados

Pode soar estranho pra nós mas, na Índia, o costume é que os casamentos sejam assim, “arranjados”. Como também soa estranho, para eles, nosso costume de deixar que os nossos  sentidos escolham os nossos pares.

Quando se trata de casamento, nada de  “corações disparando”, “atrações de pele”…! É claro que tudo isso acontece, afinal  os sentimentos humanos são os mesmos em qualquer parte do mundo. Mas na India não se considera que esse seja um ponto de partida confiável para se construir um casamento.

Para o indiano, o amor é uma construção do dia a dia. E o ponto de partida, a base de um casamento auspicioso, não está no emocional: os noivos devem pertencer à mesma casta -o que significa que suas famílias tem os mesmos costumes e os mesmos valores, seus horóscopos devem combinar.

Eles  fazem uma analogia entre o casamento e uma chaleira com água: dizem que nós casamos quando a água está fervendo, e durante o casamento ela só faz esfriar! eles se casam com a água fria, e durante o casamento a fazem ferver.

A professora Sandra Bose mostra, nesse video, o caderno de casamento do jornal de domingo na India

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La Reina del Sur

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Notícia boa: a Globosat vai passar La Reina del Sur. Eu vi essa novela quando ela foi lançada, em 2011, pelo site da Telemundo: é ótima. A história de Tereza Mendonza, que se tornou a rainha do narcotráfico, é uma adaptação do livro de Arturo Perez -Reverte, e foi escrita pelo meu amigo Roberto Stopello, o mesmo que adaptou O Clone para a versão Telemundo. Recomendo!

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Curiosidades de Caminho das Índias: Manglik

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Muitas pessoas ficaram curiosas com as cenas em que o sacerdote diz que Maya é uma “manglik”, uma amaldiçoada para o amor: Manglik é uma pessoa -homem ou mulher- que nasce sob determinada conjunção astral, e vai trazer má sorte para quem se casar com ela.

Para entender isso temos de começar pela importância do horóscopo na cultura indiana. Nasce a criança, imediatamente se faz seu horóscopo, e ele é guardado como um documento. Quando se procura um casamento, antes de se fechar o acerto, o sacerdote compara os horóscopos para saber se a união será auspiciosa.

Logo, ser manglik é um transtorno, um desgosto dentro de uma família. A não ser que o noivo (a), seja  manglik também: aí as forças se equilibram e não haverá risco para o consorte.

Mas há sempre uma maneira de driblar os astros: o sacerdote pode oficiar a cerimonia de casamento do manglik com um vegetal, um animal, algum elemento da natureza: depois disso ele poderá casar com um humano, porque a maldição já atuou sobre aquele primeiro noivo (a).

Aishwarya Rai foi Miss Mundo, é a maior estrela do cinema indiano, e transita com a maior desenvoltura em Hollywood e nos red carpets do mundo inteiro.  Sendo manglik,  teve de se casar com uma árvore antes de se casar com seu marido, o também ator Abishek Bachchan. Ela foi a inspiração para o casamento de Maya com a bananeira.

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 Para quem se interessa pelo assunto, nesse site você encontra pessoas mangliks procurando casamento. CLIQUE AQUI

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A música nas novelas

Uma pergunta que sempre fazem aos escritores de novelas é se eles opinam nas músicas da trilha: sim, porque música é dramaturgia. Assim como as cenas, as músicas também constroem uma emoção no público.

Basta que Norminha passe ao som do seu tema para que você sinta quem ela é:

E assim como as personagens, os romances: não é à toa que  amores marcantes nos trazem sempre a lembrança de alguma música.É assim na vida real e também nas novelas. Elas dão o tom do romance.

Eu dou tanta importância à música de cada casal, que fica duro escolher. Mas seleciono algumas que expressam romances de coloridos bem diferentes:

Clara e João em Barriga de Aluguel:

o peão Dinho e a viúva Neuta, em América

Vera e Jatobá, em América:

o malandro Feitosa e a loura, em América. Feitosa acabou fazendo shows com a Marrom

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11 de agosto

Dany

Por 22 anos esse foi o dia mais feliz em nossa casa. Hoje não temos festa: só saudade.

São 23 anos sem ela. O mundo mudou tanto e ela não viu. Não conheceu a internet, o celular, os avanços da ciência e da tecnologia, não teve seus filhos nem viu nascer seus sobrinhos -não viveu o que sonhou viver.

Para os dois psicopatas (Guilherme de Pádua Thomaz e Paula Thomaz, hoje assinando Paula Nogueira Peixoto), saiu barato.

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Caminho das Indias: o etnocentrismo em cena

Raj e Duda

A cena em que Raj diz a Duda porque não pode se casar com ela é um exemplo muito interessante de como as diferenças culturais possibilitam leituras equivocadas.

Como muitos indianos, Raj estudou na Inglaterra e tornou-se um empresário bem sucedido internacionalmente. Mas é um indiano, como um inglês continuará sendo um inglês, um americano um americano, um brasileiro um brasileiro, ainda que transite com traquejo pelo resto do mundo.

A visão etnocentrista do ocidente faz parecer que uma cultura diferente se “civiliza” quando em contato com a nossa -como se fôssemos o umbigo do mundo. Ledo engano!

O conflito de Raj é ter de optar entre a família e o amor. E essa opção é bem mais complexa dentro da cultura indiana. Optar pelo amor significa, para Raj, ser banido da família e da casta.  Um homem sem casta e sem família seria um pária social.

E como não temos nem castas nem a mesma configuração de família, lido pelos parâmetros da nossa cultura não há conflito aí: há cafagestagem. Não se pode supor que um empresário bem sucedido, um homem do mundo, não se case com a mulher que ama porque a família não quer. “A família se conquista depois, nascido o primeiro filho é certo que eles se dobrem. Assim costuma acontecer no Brasil, de modo que são esses os argumentos de Duda.

Quando Raj não cede, ela só pode supor que o motivo do rompimento seja outra mulher. E diz que perdoa, passa a borracha por cima, esquece a traição, desde que continuem juntos. Agora quem se surpreende é Raj: como é possível que possa ser tão fácil pra ela entender a existência de outra mulher na vida dele e não entender a importância de um rompimento com a família?

Eles estão falando de pesos e medidas diferentes. Nos somos individualistas. Nosso objetivo maior é a nossa realização pessoal. Para o indiano, é o equilíbrio do conjunto. Os desejos individuais devem se subordinar sempre a esse equilíbrio.

Por isso Ghandi diz que relutou muito em fazer sua biografia, porque nunca pôde entender que importância poderia ter a vida de um indivíduo.

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Thammy: Nadando contra a corrente

Thammy

 

Em setembro, dia 7, na Bienal do livro, temos o lançamento da biografia de Thammy, onde ela conta como se descobriu trans e como está sendo viver a travessia para o gênero com o qual se identifica. Foi escrito por Marcia Zanelatto. Fiz a orelha, e como já foi publicada, transcrevo aqui pra vocês:

Sempre admirei a autenticidade de Thammy: e muito mais agora, acompanhando a maneira corajosa como se reinventa e ocupa seu lugar no mundo.

Se é difícil suportar o incômodo de uma roupa, de um sapato apertado, imagine a provação de suportar um corpo que não veste sua alma nem sua mente. Um corpo dissociado de você, que não expressa você, pelo contrario, o agride.

Imagine a violência de existir assim, intimidado, clandestino, dentro de uma forma física que você percebe como uma camuflagem de si.

Somos homens ou mulheres a partir de uma designação baseada no aparente sexo de nascimento. A partir daí a sociedade nos atribui papeis bem definidos, e cobra correspondência a eles.

Mas se nem tudo é o que parece ser, nesse terreno também funciona assim: entre o XX e o XY há toda uma gama de possibilidades. O gênero que atribuímos a uma pessoa, quando ela nasce, não é necessariamente o gênero com o qual ela vai se identificar e reconhecer.

Assim, resgatar a compatibilidade entre corpo e mente é um ato libertador.

Tenho certeza que Thammy sempre terá orgulho da Thammy que enfrentou tantos desafios para que o Thammy pudesse existir às claras.

E aqui está ele, contando essa difícil e penosa travessia, para nos mostrar que existem muitas formas de viver o masculino e o feminino. E que só se pode ser feliz assim, na liberdade de SER.

Como dizia dona Canô: “ser feliz é pra quem tem coragem”

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Caminho das Índias: Laksmi e os comerciantes

Manu

Manu

Vocês viram que Manu não fechou a compra dos computadores porque era sexta-feira, dia de  Laksmi.

Laksmi é a manifestação divina da beleza, da fartura e da prosperidade.

Claro, é a divindade que protege a casta dos comerciantes.  Seu dia é a sexta-feira. Portanto, na sexta-feira    não se deve abrir a carteira: o dinheiro não sai, só entra.

E se um casamento cai na sexta feira, faz-se a festa mas não se entrega a noiva: a moça da casa é a Laksmi da família. Deixa-la ir embora no dia dedicado à deusa não seria nada auspicioso!

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Bandido, o boi e o mito

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Bandido, o touro mágico da novela América. Mágico só na novela? que nada! nesse caso, a novela não fez mais do que retratar a vida real! Bandido era um rei, nos pastos e nas arenas. Impossível não se impressionar com ele.

Encarava a gente com a tranquilidade e a superioridade de quem detém todos os poderes. E detinha mesmo: ninguém se vangloria de ter ficado sequer 8 segundos em cima de seu lombo. Não tolerava ser montado.

Tinha uma origem obscura: foi criado por um cigano e, no meio dos rodeios, lhe atribuíam poderes sobrenaturais.

Na India, Bandido também é estrela. Vejam o que diz a reportagem do G1:

a fama que o Boi Bandido conquistou no Brasil, e que ganhou destaque na novela “América”, de Glória Perez, não ficou só por aqui. Bandido é cultuado também na Índia, onde a novela da autora está em exibição desde fevereiro desse ano.

“Além de ser a primeira novela brasileira a passar naquele país, tem a coisa do culto às vacas, que são consideradas sagradas lá. O país inteiro pára quando o Bandido aparece em cena”, contou um dos organizadores da festa.

Quando morreu, foi uma comoção. Enterrado com todas as honras, ganhou uma estátua no Parque dos Peões.

Bandido também foi cantado pelos cordeis. Olha uma amostra:

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Curiosidades sobre Caminho das Indias

O sacerdote que vemos atrás da noiva é um importante físico nuclear do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): Udaya B. Jayanthi deu aula em Universidades brasileiras, especialmente em SP, e tem artigos publicados na revista Nature.

Sendo um brâmane, o sr Jayanthi tem como dever de casta oficiar e orientar atos religiosos do hinduísmo. Fez isso em Caminho das Indias.

É interessante que, entre nós, quanto mais a pessoa se aprofunda na ciência, mais se afasta da idéia de Deus. Na Índia é o inverso!

casamento Komal

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