O processo – 1909

Para compreender uma história é preciso, antes de mais nada, reconstituir o tempo em que ela se desenrola, porque cada época prioriza valores, sedimenta costumes, visões de mundo que lhes emprestam caracteristicas muito próprias. Não podemos avaliar um acontecimento anterior a nos com as lentes do nosso tempo.

Tudo começa, como se pode depreender da leitura dos autos e cartas particulares, com uma incompatibilidade de sonhos. Saninha casou, como ela própria declara, como as pessoas costumavam casar naquela época: por ” influência – no seu caso-, de menina”, idealizando romances, fantasiando a figura do cadete Euclydes da Cunha. Era uma época em que a farda exercia grande atração sobre as moças, e as pessoas não tinham quase nenhuma convivência antes de casar; os encontros eram sempre formais, na sala de visitas e sob os olhos vigilantes dos familiares. Os critérios de escolha eram a respeitabilidade do nome da familia do pretendente, o fato de nao ter vícios e ser capaz de garantir o sustento e a segurança da familia, através de uma carreira promissora. O resto se descobria depois. Casar era um destino natural, uma preocupação de todos. Quando chegava a idade do casamento, as pessoas casavam. Ou não casavam, o que era tido como uma infelicidade.

Assim, Saninha e Euclydes casaram, sem se dar conta de que havia, entre eles, uma incompatibilidade de sonhos. Euclydes nao via problemas nem enxergava riscos no fato de estar se ausentando constantemente, para cumprir as obrigaçoes de seu trabalho: a esposa devotada à familia, cuidando da casa e dos filhos para que o marido desempenhasse sua profissão e crescesse em sua carreira, era o modelo da época. Mas Saninha não se adequava a esse modelo, na medida em que, para além desse ideal de familia, ansiava por uma realizaçao pessoal.

O DRAMA

Em 1904 Euclydes é mandado para o Acre e ela fica no Rio, com os filhos. Em setembro de 1905, se muda para a pensão Monat (Senador Vergueiro 14), onde está hospedada a amiga Lucinda Ratto. Vai com Manoel Afonso, o mais novo dos seus filhos com Euclydes. Os mais velhos, Solon e Quidinho, estão no colégio interno. É ali, na pensao Monat que ela reencontra Dilermando, a quem só tinha visto uma vez, em São Paulo, no ano de 1899, quando acompanhou a mãe dele, também sua amiga, numa visita ao colégio onde estava interno.

Tambem nesse setembro de 1905, Dilermando vem de São Paulo para fazer a Escola Militar, Vai à pensão, entregar uns albuns de música que tinham sido mandados para a tia Lucinda. Dias depois, segundo conta em seu livro, A Tragédia da Piedade, muda-se para lá, a convite de Lucinda e Saninha. Começa o romance. Ele tem 17 anos. Ela, 33. Em outubro, Saninha aluga uma casa na rua Humaitá e se muda, levando Dilermando a pretexto de lhe fazer companhia. Nessa casa moram juntos por dois meses apenas (novembro e dezembro), porque a 1 de Janeiro de 1906, chega o telegrama de Euclydes: “Estou na baia, a bordo do Tennyson. Mande me buscar”

Saninha está gravida. Temendo despertar as suspeitas do marido, com a retirada brusca de Dilermando da casa, leva-o ao porto para receber Euclydes. E o apresenta ao marido como o sobrinho de sua comadre Angelica Ratto. É nesse momento que Euclydes e Dilermando se vêem pela primeira vez.

Saninha (no processo) e Dilermando (no livro A Tragédia da Piedade), falam dos comentários e cartas anônimas que sucederam a chegada de Euclides. O clima da casa se torna pesado com as desconfianças suscitadas nele, e alguns dias depois Dilermando resolve retirar-se, voltar a morar na Escola Militar. Tentando manter-se a salvo das desconfianças, escreve uma carta que Euclydes logo responde: apesar de aborrecido por um sem número de contrariedades, julgo que não o trato mal. Na sua idade nunca se é um homem baixo. Não creio que lhe houvesse feito tal injustiça. A minha casa continua aberta sempre aos que são dignos e bons. Não poderá fechar-se para você. Até sábado. Estude, seja sempre o mesmo rapaz de nobres sentimentos…

Em março de 1906 Dilermando vai para a Escola de Guerra, em Porto Alegre. A reação de Saninha, o sofrimento que ela não esconde diante dessa partida, leva Euclydes a desconfiar que Dilermando seja o homem com quem ela confessou ter se envolvido -só espiritualmente- durante sua ausencia. Saninha revela em seu depoimento ao juiz que fez tudo o que esteve ao seu alcance para abortar, chegando mesmo, aos 8 meses de gravidez, a procurar um velho médico da familia para contar que havia sido violentada e pedir que realizasse o aborto. Diante da negativa -palavras dela-arquiteta uma mudança de casa, para que o esforço da mudança justificasse o parto prematuro.

O menino, Mauro, viveu apenas uma semana, constando em seu atestado de óbito que morreu de deficiência congenita. Há uma carta de Euclydes da Cunha, datada do dia da morte do menino, em que lamenta não poder ir a um compromisso por força de um “doloroso dever”. A cena da minissérie, em que Saninha jura diante do caixão de Mauro que ele não é filho de Dilermando, bem como o seu posterior pedido de reconciliação com Euclydes, está narrada em detalhes no seu depoimento ao juiz.

O que se depreende da leitura da documentação disponivel, é que os comentários e as cartas anonimas fizeram Euclydes desconfiar da fidelidade de Saninha e da paternidade da criança que ela esperava. Mas não ter certeza. Após a cena do juramento diante do corpo e Mauro, o casal se reconcilia. Saninha e Dilermando continuam a se corresponder, através da caixa postal que ela abriu com o nome de Olinda Ribeiro.

A respeito da morte dessa criança, deve-se registrar que é falsa a acusação contida no livro “Anna de Assis- história de um trágico amor”, onde Judith de Assis conta que a mãe, Saninha, morreu sem saber onde estava enterrado o menino Mauro. Depois de um processo movido pela familia Cunha, a redação desse parágrafo foi um pouco modificada. A bem da justiça, diante de uma acusação tão grave, deixo aqui um trecho do depoimento de Saninha ao juiz (em 1909):

que em meados de 1907 regressou a esta cidade da Escola Militar do Rio Grande, onde se achava, e desde essa data, em companhia da informante continuaram ir ao cemitério S João Batista quise que diariamente visitar o túmulo de seu filho; que no dia 20 de fevereiro, no cemitério, fez ela informante fazer o denunciado o juramento de ter com ela um novo filho

Saninha fica grávida de novo. E ainda em 1907 nasce Luiz, o menino louro de quem Euclydes dirá: nasceu uma espiga de milho no meu cafezal.

Da leitura de toda a documentaçao, vê-se que o casal vive numa calma aparente até o ano de 1909, quando Dilermando volta definitivamente para o Rio. Nos primeiros meses ele fica na Escola Militar. Em junho se muda para a casa alugada na Estrada Real de Santa Cruz 214. Não é dificil imaginar os sentimentos de Saninha, depis que Euclydes faz um concurso para professor, disposto a não viajar mais, a manter-se junto a familia. Pela ordem natural das coisas, mais dia menos dia Dilermando encontraria uma moça livre e se casaria com ela. Tudo conspira contra o romance. Também não é difícil imaginar os sentimentos de Dilermando, ouvindo a mulher por quem está apaixonado queixar-se do casamento e refugiar-se junto a ele.  Sente como um dever de honra protegê-la. E imbuido desse sentimento, apoia a decisão dela de permanecer na casa e enfrenta o marido transtornado. Mais tarde, quando a vida cobrar seu preço, ele escreverá um livro -A tragédia da Piedade- , onde atribui certas atitudes à sua pouca idade e pouca experiência de vida. Quanto a Euclydes, é fácil compreender o tumulto de sentimentos de alguém que perde o chão, quando informado que vem sendo traído desde sempre, que não é pai de um dos filhos, o dinheiro que ganha com dificuldade vem sendo usado por sua mulher para manter o amante que viveu em sua casa (mesmo que na sua ausência),  que seus filhos sabem e são cúmplices desses desmandos. Foi atormentado por essas revelações, que ele atravessou a noite que antecedeu sua morte, insone, fumando um cigarro após o outro.  Pela manhã, implorou a dona Angelica,  pelas cinzas de sua mãe que lhe dissesse onde mora esse desgraçado. Ela disse.

Mas voltemos às semanas que antecederam a tragédia, quando, a pedido de Euclydes,  Saninha vai a São Paulo, ver o sogro, Manoel da Cunha, que estava doente. Leva Dilermando nessa viagem e deixa tomando conta da casa as duas tias dele, Angelica e Lucinda. A partir dai, as coisas se complicam. Cria-se uma evidente animosidade entre as mulheres. Saninha se queixa da influencia que as duas passam a exercer sobre Euclydes, e as tias de Dilermando desabam sobre ela o seu ressentimento. A partir de uma afirmação de Angelica à mesa, sugerindo a semelhança entre o menino Luis e Dilermando, a ficha cai para Euclydes. Há uma sequencia de brigas e discussões que antecedem a chegada de Saninha na casa da Piedade, onde ela diz a Dilermando que nao voltará mais para seu marido, e que foram contadas detalhadamente, na minissérie, com base no seu depoimento ao juiz.

O PROCESSO E A ABSOLVIÇÃO

Nao se pode ter dúvidas quanto à disposição de Euclydes, ao entrar armado na casa de Dilermando. Nem quanto ao fato de que tenha sido ele a dar os primeiros tiros. Portanto, a minissérie não questiona a absolvição por legítima defesa. É justa.

Mas se é preciso olhar de maneira critica o relatório do delegado, também é preciso olhar de maneira critica para o modo como a defesa foi construida. O delegado Alcântara Machado, em seu relatório, conclui que Euclydes havia sido atraído à casa da Piedade para uma emboscada. E a opinião pública manifestava-se fortemente contra Dilermando. Tornou-se voz corrente que tinha sido criado por Euclydes, protegido por Euclydes e que, ingrato, mordera a mão de seu benfeitor. O testemunho das tias Angelica e Lucinda, acusando Saninha de pagar as contas do amante com o dinheiro do marido, o testemunho da empregada (Ana De Lima), contratada por Saninha para servir Dilermando, o fato de que ele ainda fosse um estudante de 21 anos, morando numa casa de aluguel superior ao seu soldo, tudo vinha corroborar a indignaçao popular.

Evaristo de Moraes fixou-se em dois pontos: provar que seu cliente não era um ingrato, não fora criado por Euclydes nem protegido dele. O que era verdade, porque só vieram a se conhecer quando Euclydes voltou do Acre, época em que Dilermando e Saninha já estavam tendo um caso e morando juntos na rua Humaitá.

O segundo ponto -esse sim, bastante discutível, era tentar provar que Euclydes sempre soube do caso entre sua mulher e Dilermando. E que, portanto, não havia razão para se esperar que estivesse armado e disposto a defender sua honra, quando bateu à porta da casa da Piedade naquela manhã de 15 de agosto. Dificil acreditar nisso. Numa leitura critica dos autos, tudo nos leva a crer que, se havia alguma desconfiança, Euclydes teve a certeza da traição e da amplitude dela naqueles dias que antecederam o crime, mais precisamente na noite anterior, quando ouviu as revelações de dona Angelica Ratto, e descobriu que os filhos frequentavam com Saninha a casa de Dilermando. A informação de seu estado de espírito exaltado e disposto a tudo chegou à Piedade através de Solon, que foi armado de revolver buscar a mãe, e de Dinorah, que naquela mesma noite, mandado a copacabana para tentar saber o que acontecia por lá, ouviu o dr Euclydes gritar: “amanha ponho tudo em pratos limpos”.

Logo, seria muita ingenuidade supor que, na manha seguinte, ele aparecesse para uma visita cordial. Mais facil esperar que reagisse como era de praxe reagir naquela época em que a honra se lavava com sangue. Mesmo nos dias de hoje, ninguém deixaria de pensar na possibilidade de uma reação violenta do marido que bate à porta do amante de sua mulher. Mas Evaristo de Moraes precisava derrubar a tese do delegado. E para respaldar a defesa, Saninha dá o célebre depoimento ao juiz, contando detalhes de sua vida íntima.

Dilermando foi julgado duas vezes, e por duas vezes absolvido.

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