Revista Diretrizes, dezembro de 1946

“NÃO ME RALO DE REMORSOS!”

D. Anna de Assis está escrevendo suas memórias – “Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: Vivemos juntos!”

Conversamos hoje, durante duas horas, com d. Anna Solon de Assis, numa casa tranqüila da Gávea. Ficou combinado, na despedida, que somente uma

parte da longa conversa seria reproduzida neste jornal. A outra parte só será divulgada em volume. É que a viúva de Euclides da Cunha está escrevendo suas Memórias. Um livro mais sensacional do que o de Isadora Duncan. “Não sob o aspecto artístico ou literário – explicou-nos ela. -Não sou nenhuma “ba bleu”. Não faço literatura. Escrevo como converso, sem me ocupar com as galas do estilo. Contarei tudo, apenas, e com todos os detalhes, desde 16 de novembro de 1889, data em que conheci Euclides, até o dia de hoje.

ENCONTRO COM EUCLIDES

E d. Anna de Assis descreve o primeiro encontro:- No dia seguinte ao da proclamação da República, Euclides foi lá em casa acompanhado de um rapaz de nossas relações. Queria um favor de meu pai, o marechal Frederico Solon, que gozava, na ocasião, de grande prestígio político e social. Euclides tinha sido expulso da Escola Militar. Estava a paisana. Fui recebê-lo à porta, e ele escondeu-se timidamente atrás de um pé de manacá. “Tipinho esquisitinho!…” -pensei comigo. Mas, apesar de timido, Euclides deixou sobre a mesa uma declaração de amor. Ficara louco por mim! Depois tive a prova: ele guardava uma folhinha com a estampa de linda rapariga. “Eu só me casaria- me disse Euclídes- quando encontrasse uma criatura assim.” E então nos casamos. Meu pai levava muito a gosto o nosso casamento. Admirava Euclides. Eu, também. Mas não estava apaixonada. Era só influência de menina. Casamo-nos, um ano depois de Rondon. Quase todo o Ministério esteve presente à cerimônia.

A BELA DE JAGUARÃO:

Euclides tinha razão. Aos 75 anos de idade, d. Anna de Assis ainda mostra o que foi aos quinze anos, quando deixou o Colégio das Irmãs para casar com o escritor. Um amor de mulher! E ela própria confessa que foi realmente linda. Enchia um salão. Mas a gauchinha de Jaguarão não era só formosura. Tinha “Sex-appeal” e muita personalidade. Ainda hoje seus olhos brilham e sua voz tem acentos de mocidade. Acorda cedo, toma banho de chuveiro e é capaz de saltar de um bonde em movimento. Outrora fumava três maços de cigarros por dia. Hoje é abstêmia. Não bebe nem fuma. Saúde perfeita, excelente bom humor, uma memória de anjo.

OSTRACISMO SOCIAL

– Em mocinha era muito despachada… – sorri dona Anna de Assis.Uma vez, em Buenos Aires, como o meu pai estivesse ocupado, recebi osjornalistas e dei uma entrevista à imprensa. Tive uma vida social muito intensa. Há muitos anos, porém, que vivo isolada. Quase não saio. A nãoser, aqui por perto, para visitar os meus filhos e netos. Mas vivo feliz no meu ostracismo social. Completamente feliz! Minhas filhas casaram-se bem. Também são felizes. E meus netos me adoram. Passo os dias sozinha,lendo, escrevendo, ouvindo rádio. Pode haver maior ventura na velhice deuma mulher condenada, na juventude, a viver eternamente infeliz? Não sou Maria Madalena! Não me ralo de remorsos. Não me queixo dos outros, nem odeio a ninguém. Como acontece nas tragédias gregas, a culpa entre nós também cabe aos deuses. Compreendi logo que tínhamos sido vítimas da Fatalidade. Por isso me recusei em atender a um amigo de Euclides que me pediu que acusasse Dilermando. Não acusei, nem acuso ninguém.

O SUCESSO DE “OS SERTÕES”

– Mas tudo isso será compreendido um dia – prediz a viúva de Euclides.- Direi toda a verdade, inclusive sobre o motivo determinante do grande sucesso de livraria de Os Sertões. Note que me refiro ao êxito comercial, e não ao literário. A saga da literatura brasileira seria grande sob quaisquer circunstâncias.

MENTIRAS DE ELOY PONTES

– A tragédia converteu-se em fonte de renda para muitos medíocres- prossegue dona Anna de Assis. – Sujeitos que nem conheceram Euclides tornavam-se seus defensores… em causa própria. Esses tipos nunca privaram conosco. Nosso meio era fino demais para eles. Nossas relações eram com gente boa, como o barão do Rio Branco, Machado de Assis, Sílvio Romero, Oliveira Lima, Coelho Neto etc. Esses, sim, nos conheceram de perto. E é preciso conhecer para poder julgar. Ainda assim há pessoas que não julgam. Preferem amar. Nunca me esqueço destas palavras de Gaby Coelho Neto: “Seja mentira ou verdade, Aninha, serei sempre tua amiga.”E Gaby, como seu marido, tinha admiração por Euclides. Pois bem: vem agora um Eloy Pontes, que nada sabia de nossa vida, e resolve escrever mentiras sobre Euclides da Cunha. Só não dei nele, na rua, porque Orestes Barbosa procurou aplacar minha justa revolta contra o livro de Eloy numa vitrina de livraria.

EUCLIDES E PAGANINI

– Eu é que posso escrever sobre Euclides – continua dona Anna de Assis.Vivemos juntos. Dormimos no mesmo quarto.Duvido que alguém tenha por ele maior admiração do que a minha. Mas o escritor era diferente do homem. Euclides foi a criatura mais orgulhosa que conheci. Tinha muita ambição e, no entanto, era de uma honestidade absoluta. Mas, como todo puritano, era seco de coração. Chegava a ser ríspido. Não fazia carinhos. Nem aos filhos. Valente e tímido, simples e ao mesmo tempo doentiamente vaidoso, era um homem complexo. Quase não elogiava ninguém. Coelho Neto, para ele, era um escritor “para mulher”.Foi uma luta para persuadi-lo a escrever o prefácio de O Inferno Verde. Euclides relutou muito. Não achava que o Alberto Rangel fosse um bom escritor. Outro defeito de Euclides: escrevia a lápis nos punhos da camisa. Não cuidava de sua aparência. E depois, como era feio! Só uma coisa chamava atenção: seu olhar fulgurante. Como Paganini, Euclides também tinha grande desgosto de ser feio.Odiava a fealdade e a velhice. Nunca soube por que, ele não podia recitar ou discursar na minha presença.

“DEIXARAM-ME LIMPA”

– Quando ocorreu a tragédia – continua d. Anna de Assis, mudando um pouco de assunto – os parentes de Euclídes carregaram tudo. Deixaram-me limpa. Livros, manuscritos, apontamentos, correspondência etc. Feito o inventário, nada me coube. Mas sou a herdeira legítima das obras de Euclides. Seu “copi-right/” me pertence. Não abro mão dos meus direitos. Quanto aos papéis que levaram, pouca falta me fazem como fichário, pois tenho boa memória! Reproduzi de cor tudo o que sucedeu nestes últimos 57 anos.

A ENTREVISTA DE NORMA

D. Anna de Assis leu a entrevista que Norma, neta de Euclides, concedeu a Diretrizes, mas prefere não falar sobre o assunto. Insistimos, e ela exclama:- Ri melhor quem ri por último!… Faz uma pausa e prossegue:- Norma ignora o que se passou. Se conversasse comigo saberia então a verdade. Mas sua mãe, que se casou com um chofer, segundo ouvi dizer, sempre evitou que meus netos me visitassem, apesar do convite que lhes mandei. Minha porta nunca esteve fechada para eles. Se quiserem vir, continuo às ordens. Mas estou muito velha para ir buscá-los…

ERRO HISTÓRICO

A esta altura pedimos um esclarecimento a d. Anna de Assis: Onde Euclides escreveu Os Sertões?- Na Fazenda Trindade, em São Carlos do Pinhal informa a nossa entrevistada. Foi lá que Euclides trabalhou no livro, escrevendo dia e noite. Como tinha uma “letra mesquinha”, no dizer do Rangel, pagou a um rapaz para passar tudo a limpo em caracteres legíveis. Na noite em que a obra ficou pronta, Euclides teve a primeira hemoptise. Encontrei-o banhado em sangue no quarto de dormir. Passamos ainda três meses na fazenda. Depois ele foi construir a ponte de São José do Rio Pardo. A cabana onde dizem que Euclides escrevera Os Sertões era apenas um ponto de reunião. Euclides trabalhava o dia todo. Ainda que o quisesse, não poderia escrever sob o martelar constante das bigornas. Nas minhas “memórias” destruirei as fantasias dos cronistas de Euclides. Meu livro poderá não ser muito bonito, mas será verdadeiro!

One Response to Revista Diretrizes, dezembro de 1946

  1. Angela outubro 28, 2011 at 9:11 am #

    Mulher de fibra, admirável…
    Hj a maioria das mulheres que passasse oque ela passou..entraria em sincope!!
    Obrigada a nossa Gloria Perez por nos participar dessa história!!
    Outra grande mulher essa Glória…por tudo que passou ainda nos tras alegrias c suas novelas e minisséries.
    É em mulheres como vcs que costumo me espelhar…
    Parabéns Glória!!

    Grande abraço

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