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Culturas exóticas

livro Bianca

Escuto muito dizerem que algumas de minhas novelas abordaram “culturas exóticas”. Ainda que o termo seja preconceituoso e equivocado para definir qualquer cultura, de maior ou menor expressão no cenário mundial, no caso aqui estamos falando de muçulmanos e hinduístas, culturas presentes e atuantes na política e na economia do mundo em que vivemos.

Porque “exóticas”, então? porque são diferentes de nos. Isso tem nome: etnocentrismo. Vem do grego Ethos -conjunto de hábitos e crenças de uma comunidade- e de centrismo -centro. Trocando em miúdos: nossa maneira de ver e de viver é a correta, a lógica, está no centro. O que é diferente dela vai para a prateleira do “exótico”.

Bom lembrar que do ponto de vista de muitas outras culturas, os “exóticos” somos nos! que o diga Hollywood! 🙂

Por isso lembrei desse livro. Bianca Freire-Medeiros é professora da USP e foi minha pesquisadora em Caminho das Indias. Nesse trabalho ela fala sobre como Hollywood  nos retratou do ponto de vista do etnocentrismo da  cultura americana. Vale a pena ler e refletir.

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11 de agosto

Dany

Por 22 anos esse foi o dia mais feliz em nossa casa. Hoje não temos festa: só saudade.

São 23 anos sem ela. O mundo mudou tanto e ela não viu. Não conheceu a internet, o celular, os avanços da ciência e da tecnologia, não teve seus filhos nem viu nascer seus sobrinhos -não viveu o que sonhou viver.

Para os dois psicopatas (Guilherme de Pádua Thomaz e Paula Thomaz, hoje assinando Paula Nogueira Peixoto), saiu barato.

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Caminho das Indias: o etnocentrismo em cena

Raj e Duda

A cena em que Raj diz a Duda porque não pode se casar com ela é um exemplo muito interessante de como as diferenças culturais possibilitam leituras equivocadas.

Como muitos indianos, Raj estudou na Inglaterra e tornou-se um empresário bem sucedido internacionalmente. Mas é um indiano, como um inglês continuará sendo um inglês, um americano um americano, um brasileiro um brasileiro, ainda que transite com traquejo pelo resto do mundo.

A visão etnocentrista do ocidente faz parecer que uma cultura diferente se “civiliza” quando em contato com a nossa -como se fôssemos o umbigo do mundo. Ledo engano!

O conflito de Raj é ter de optar entre a família e o amor. E essa opção é bem mais complexa dentro da cultura indiana. Optar pelo amor significa, para Raj, ser banido da família e da casta.  Um homem sem casta e sem família seria um pária social.

E como não temos nem castas nem a mesma configuração de família, lido pelos parâmetros da nossa cultura não há conflito aí: há cafagestagem. Não se pode supor que um empresário bem sucedido, um homem do mundo, não se case com a mulher que ama porque a família não quer. “A família se conquista depois, nascido o primeiro filho é certo que eles se dobrem. Assim costuma acontecer no Brasil, de modo que são esses os argumentos de Duda.

Quando Raj não cede, ela só pode supor que o motivo do rompimento seja outra mulher. E diz que perdoa, passa a borracha por cima, esquece a traição, desde que continuem juntos. Agora quem se surpreende é Raj: como é possível que possa ser tão fácil pra ela entender a existência de outra mulher na vida dele e não entender a importância de um rompimento com a família?

Eles estão falando de pesos e medidas diferentes. Nos somos individualistas. Nosso objetivo maior é a nossa realização pessoal. Para o indiano, é o equilíbrio do conjunto. Os desejos individuais devem se subordinar sempre a esse equilíbrio.

Por isso Ghandi diz que relutou muito em fazer sua biografia, porque nunca pôde entender que importância poderia ter a vida de um indivíduo.

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Caminho das Índias: Laksmi e os comerciantes

Manu

Manu

Vocês viram que Manu não fechou a compra dos computadores porque era sexta-feira, dia de  Laksmi.

Laksmi é a manifestação divina da beleza, da fartura e da prosperidade.

Claro, é a divindade que protege a casta dos comerciantes.  Seu dia é a sexta-feira. Portanto, na sexta-feira    não se deve abrir a carteira: o dinheiro não sai, só entra.

E se um casamento cai na sexta feira, faz-se a festa mas não se entrega a noiva: a moça da casa é a Laksmi da família. Deixa-la ir embora no dia dedicado à deusa não seria nada auspicioso!

LAKSHMI

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Bandido, o boi e o mito

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Bandido, o touro mágico da novela América. Mágico só na novela? que nada! nesse caso, a novela não fez mais do que retratar a vida real! Bandido era um rei, nos pastos e nas arenas. Impossível não se impressionar com ele.

Encarava a gente com a tranquilidade e a superioridade de quem detém todos os poderes. E detinha mesmo: ninguém se vangloria de ter ficado sequer 8 segundos em cima de seu lombo. Não tolerava ser montado.

Tinha uma origem obscura: foi criado por um cigano e, no meio dos rodeios, lhe atribuíam poderes sobrenaturais.

Na India, Bandido também é estrela. Vejam o que diz a reportagem do G1:

a fama que o Boi Bandido conquistou no Brasil, e que ganhou destaque na novela “América”, de Glória Perez, não ficou só por aqui. Bandido é cultuado também na Índia, onde a novela da autora está em exibição desde fevereiro desse ano.

“Além de ser a primeira novela brasileira a passar naquele país, tem a coisa do culto às vacas, que são consideradas sagradas lá. O país inteiro pára quando o Bandido aparece em cena”, contou um dos organizadores da festa.

Quando morreu, foi uma comoção. Enterrado com todas as honras, ganhou uma estátua no Parque dos Peões.

Bandido também foi cantado pelos cordeis. Olha uma amostra:

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Curiosidades sobre Caminho das Indias

O sacerdote que vemos atrás da noiva é um importante físico nuclear do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): Udaya B. Jayanthi deu aula em Universidades brasileiras, especialmente em SP, e tem artigos publicados na revista Nature.

Sendo um brâmane, o sr Jayanthi tem como dever de casta oficiar e orientar atos religiosos do hinduísmo. Fez isso em Caminho das Indias.

É interessante que, entre nós, quanto mais a pessoa se aprofunda na ciência, mais se afasta da idéia de Deus. Na Índia é o inverso!

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Quando os Emmys se encontram…

E aqui estamos nos, dando partida ao projeto, a série de suspense  Dupla Identidade

Amora Mautner não conseguiu se desvencilhar dos compromissos anteriores, e o tempo “rugia”: veio o Maurinho Mendonça, com as devidas benções -as minhas e as da diretora que vai.

Aí o registro do nosso primeiro encontro: simpatia, sintonia, vontade de fazer o melhor, tudo o que se precisa para mergulhar com segurançha nos misterios da “Dupla Identidade!

E vamos nos!
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e o Complexo do Alemão???

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Foi ousado e oportuno trazer o Alemão como cenário principal de uma novela das 21 horas. E pela primeira vez, na história das telenovelas, uma garota favelada foi protagonista.

Vivíamos, então, o impacto da retomada daquela área submetida durante tantos anos ao poder paralelo do tráfico.

É claro que aqueles momentos históricos, quando as bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro foram fincadas no topo do morro, sinalizando o resgate da cidadania daquela população, não significaram o fim de uma caminhada, mas o primeiro passo.

Triste ler as noticias sobre os tiroteios e o retorno gradual dos traficantes. Vamos ficar atentos. Não podemos perder de novo o Alemão.

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Yes, nos temos Morena!

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Sim. Morena Baccarin leu, gostou e aceitou fazer Dupla Identidade: Gostei muito do roteiro! Achei interessante e muito diferente dos programas típicos da Globo.

Depois do primeiro contato por mail, conversamos pelo skype. Além de excelente atriz, Morena é uma simpatia.

Agora é esperar o resultado das negociações.

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Brasileiros traficados para o exterior

Muita gente confunde a imigração ilegal com tráfico humano: são coisas bem diferentes.

Na imigração ilegal, paga-se o coyote para possibilitar e conduzir a entrada ilegal no país (no caso da novela “América”, EUA), e a relação termina aí. No tráfico humano (para prostituição ou outro tipo de trabalho), ela continua no outro país, sob a forma de escravidão por dívida.

Em “Salve Jorge” falei dos brasileiros que vão buscar lá fora uma vida melhor, e acabam vítimas dessa máfia internacional e poderosa, que movimenta, segundo dados da ONU, 32 bilhões de dólares por ano, traficando e escravizando gente. Um crime rentável e praticamente invisível, porque as vítimas, mesmo quando conseguem escapar, preferem não denunciar, por medo das ameaças da quadrilha ou pelo constrangimento de ver expostas, ao público, as humilhações a que foram submetidas.

Ana Lucia falou. Ela foi traficada para Israel em 1993, iludida por uma falsa promessa de trabalho como atendente de uma lanchonete. Resgatada pela Policia Federal depois de 4 meses prisioneira, foram muitas e dolorosas as consequências em sua vida pessoal. Mas disso não falaremos aqui.


Nos capitulos a gente trabalha esses sentimentos através de muitas cenas, explorando nuances e pontos de vista.

Aqui vai uma: é o momento em que Morena conta para Sheila que foi traficada. Conta de maneira nervosa e apressada -alguém pode chegar a qualquer momento,  não há tempo para aprofundar as emoções.

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Ainda o sonho americano

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Uma história real que me impressionou muito na pesquisa da novela América foi essa, vivida pela personagem da Bete Mendes. Consegui localizar, através de integrantes do grupo, o irmão da moça e ouvi, dele também, o relato da tragédia que viveram na travessia do deserto.

Os dois vinham de uma cidade pequena do interior de Minas e tentavam, juntos, o sonho americano. A moça foi picada por uma cobra, e não havia socorro possível: a picada era mortal e a agonia longa. Ficando ao lado dela, o grupo corria o risco de ser pego pela polícia da fronteira. Para não abandona-la agonizando sozinha,  optaram pelo tiro de misericórdia, e ela foi morta com uma bala na cabeça.

Quando encontrei o irmão ele se preparava para tentar mais uma vez…!

 

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América- o sonho americano

Na novela América falei sobre o sonho americano, essa idealização (universal)  dos Estados Unidos como a terra prometida, a nova Canãa, onde todos  encontrariam oportunidades infinitas.

Na época, já éramos o segundo país a tentar a entrada  no “paraíso” atravessando ilegalmente a fronteira mexicana. Estranhei que, ainda assim,  não se falasse disso por aqui. E quis contar a história desses brasileiros.

Visitei a fronteira, as prisões onde ficavam os ilegais pegos pela polícia, viajei no mesmo avião dos deportados -a maioria já tinha tentado outras vezes e não se mostrava disposta a desistir.

Conversei também com ilegais cubanos, que faziam a travessia em balsas muito frágeis -muitos dos ocupantes morriam no trajeto, doentes ou tragados pelas ondas das tempestades.

Na fronteira do México, alguns tentavam a travessia noturna pelo rio, enfrentando as balas da polícia, outros atravessando o deserto guiados por coyotes, e outros, ainda, imaginavam as maneiras mais bizarros de se camuflar. Na época, a embaixada americana me deu uma foto impressionante de uma garota malocada dentro do painel de um carro. Essa aqui:

Reproduzi a situação na novela, e foi dessa maneira que Sol (Deborah Secco) tentou atravessar a fronteira pela primeira vez

Vejam outros disfarces descobertos pela polícia da fronteira:

Mais detalhes no próximo post…

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