Basta olhar para a foto: a moça foi morta assim, à queima roupa. Ficou caída ao lado de uma lixeira, enquanto Pimenta Neves, na descrição da testemunha ocular, voltava tranquilamente para o carro, manobrava o veículo e ia embora na maior tranquilidade!
Não foi preso! nem ali nem mais tarde, quando o Tribunal do Juri o condenou àqueles então tradicionais 19 anos e alguns meses de cadeia! na época, o condenado a mais de 20 anos tinha direito a novo julgamento, de modo que para evitar que o processo se arrastasse por muitos outros anos, os juizes costumavam não dar sentenças que ultrapassasem esse limite, seja qual fosse a hediondez do crime praticado. Aconteceu exatamente o mesmo no júri que condenou os assassinos de minha filha Daniella. Assim, apesar de estar escrito no código penal que a pena máxima para assassinato é de 30 anos, na pratica era mesmo de 19!
Os benefícios de ser um assassino brasileiro não pararam aí: condenado, ao invés de ser levado para a cadeia, Pimenta Neves saiu do Tribunal para casa, tão livre quanto qualquer cidadão que tenha ido assistir seu julgamento. É o tipo do desfecho que reduz o Juri a um espetáculo mambembe, cuja mensagem é a reafirmação da impunidade.
Durante esses 11 anos só assistimos a concessão de benefícios ao criminoso: os 19 anos viraram 18, os 18 viraram 15, enquanto a gente lia no jornal que ele ia à praia e estava até de namorada nova! Preso, os 15 anos serão pulverizados em 23 meses. É… a matemática da justiça brasileira não é exatamente aquela que a gente aprende na escola! E o mais provável é que esses 23 meses acabem sendo cumpridos dentro da casa confortável do assassino, que é fino demais para suportar os ares da cadeia, como já demonstrou, recusando as refeições locais e começando a ter aquelas crises de mal estar que antecedem as soluções do gênero.
Se historicamente a legislação penal surgiu para proteger a sociedade, entre nós a distorção é clara: nossas leis parecem feitas de encomenda para livrar as classes mais favorecidas do alcance da justiça – e livram! um bom advogado sempre encontra a porta de saída -que o diga Pimenta das Neves.
Só espero que respeitem a dor e a revolta dos pais de Sandra Gomide, e que daqui a uns meses não estejam levando Pimenta Neves a programas de TV para ouvir as versões que ele não contou no júri, nem dedicando a ele páginas de revistas, onde se apresente convertido a alguma religião, de modo a compor a imagem de senhor respeitável e vitimizado por pais vingativos, amargos, incapazes de compreender que o que você vê na fotografia de Sandra abatida ao lado da lixeira, foi apenas um “deslize”!

No comments yet.