Meu depoimento no livro do CENTRON

Estava no meio de uma novela que escrevia sòzinha, tendo de produzir 32 páginas por dia, quando veio o diagnostico: linfoma não Hodkin na tireoide.

Eu nem sabia o que era linfoma. E sendo muito saudável,as doenças não faziam parte das minhas preocupações. Era como se me sentisse à salvo. A imagem que  fazia de mim era a de uma árvore forte, como aquelas que me viram crescer -durando muito!

Foi um susto ouvir que era um câncer.  Cresci sabendo que o câncer era condenação certa, evitava-se até pronunciar a palavra, como se até a palavra trouxesse maleficios:  as pessoas abaixavam a voz como se murmurassem um segredo atemorizante, para dizer “aquela doença”. E seguia-se um silencio consternado. O medo ficava no ar e era quase palpável.

Foi assim que  cheguei ao consultorio do dr Tabak e me postei na sala de espera: confusa. tentando adivinhar quanto tempo eu teria e se teria tempo de fazer tudo o que precisava ser feito. Como alguém surpreendido pela ordem de arrumar as malas a toque de caixa, tendo que ir embora sem conseguir deixar a casa em ordem. Essa urgencia, essa súbita tomada de consciencia da minha finitude, me permitia olhar minha vida como um todo acabado, como se já estivesse do lado de fora, e perceber  lacunas  que o atropelo do cotidiano  camuflava.

Nesse estado de espírito entrei para consulta. E veio o segundo susto, quando o dr Tabak me deu a porcentagem de possibilidades de cura. Cura? câncer pode ter cura? Em minutos aquelas fantasias antigas foram demolidas, enquanto ele falava sobre os avanços conquistados na área, e afirmava  que eu poderia e deveria continuar meu trabalho: havia uma parte que não estava ao alcance dos remédios, devia ser feita por mim –essa de manter uma postura positiva,  o que me daria mais capacidade para suportar os efeitos do tratamento. E é verdade, a experiencia nos mostra a cada momento que manter a esperança, a chama interna acesa, faz com que a gente consiga suportar o que se afigura insuportavel no terreno das hipóteses. Entao, se uma parte dependia de mim, eu ia fazer essa parte.

Continuei a escrever meus capitulos na cadeira da quimio. Com mais esforço, com mais dificuldade, mas consegui, mantendo na mente a idéia de que aquela droga potente, se trazia tanto cansaço, tanto mal estar, era porque a batalha contra a doença estava sendo travada. Nao senti absolutamente nada quando perdi os cabelos, e os cabelos sempre tinham sido  minha vaidade maior: cabelos nascem de novo, o fato de terem caido era um sinal benéfico: a doença estava sendo atacada. Não se podia saber quem ia vencer, mas estava sendo atacada!

Preciso dizer que toda essa força de resistencia foi uma construçao que nao fiz sozinha. Começou com o dr Tabak desfazendo mitos e me incentivando a me sentir capaz de seguir em frente com meu trabalho.  Tive um anjo da guarda muito especial, o José Otavio, que já tinha passado pelo tratamento no CENTRON, e que sem nem me conhecer, acolheu meus medos e minhas ansiedades, pondo seu telefone à disposiçao para que ligasse pra ele a cada dúvida nova. E no decorrer do tratamento, foi fundamental o fortalecimento dos laços de carinho e solidariedade com os  outros pacientes e com os profissionais que nos atendem.Somos uma familia. Tudo no CENTRON respira incentivo a que você se fortaleça e persista.

Aqui estou eu, um ano depois de terminada a quimio, fazendo o acompanhamento de praxe, de tempos em tempos. Nao posso determinar o final da minha história como podia determinar os finais das minhas personagens ficticias –mas ninguem pode, essa nao é uma limitação dos que enfrentam ou enfrentaram um câncer: faz parte da condiçao humana.

O que eu sei é que tomar consciencia de que tenho prazo de validade –como todo mundo- me aguçou a capacidade de saborear mais a vida, de valorizar cada dia, cada momento, sabendo que ele será único e irrepetível.

E o que eu gostaria de dizer aos que estão começando agora, é que apostem na esperança, na sua capacidade de persistir e resistir aos incômodos do tratamento. Se foi possivel para mim, se é possível para tanta gente, há de ser possivel para você  tambem!

Obrigada , dr Daniel Tabak! obrigada  familia CENTRON!

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