Foram muitos meses no Arquivo, copiando à mão o processo da morte de Euclydes da Cunha, que não podia mais ser xerocado, até que o sr Joel Tostes, da familia de Euclydes, confiasse na seriedade do trabalho e me desse uma cópia do processo, que guardo até hoje como um pequeno tesouro: ali está o primeiro relatório de delegado feito com máquina de escrever. Os depoimentos foram tomados naquela caligrafia clássica dos escrivães.
Desejo foi escrita tomando como base os processos da morte de Euclydes e Euclydes Filho, o inventário de Euclydes, documentos fornecidos pelos euclydianos e o arquivo das familias: cartas e bilhetes de Euclydes para os amigos e para Saninha, e as cartas de amor de Dilermando para Saninha. As que Saninha escreveu para Dilermando foram destruídas após o segundo casamento dele. Pena! e no decorrer da pesquisa, conheci Luiz, “a espiga de milho no meu cafezal”, então com 80 anos, mas ainda um homem extremamente bonito, como deve ter sido seu pai, com quem parecia muito.
Li também as biografias e os livros escritos por ambas as famílias, mas utilizei pouco e de maneira muito cuidadosa, porque essa história, um século depois, ainda é tratada com muito passionalismo, como se tivesse acontecido ontem.
O maior zelo foi com a figura de Saninha, uma mulher forte e admirável na determinação de perseguir um sonho de felicidade, numa época em que não havia espaço para que as mulheres tivessem sonhos próprios. Sobre Saninha, o que você verá na minissérie é o que ela disse de si, o que consta no longo depoimento que concedeu ao juiz, na presença de seu advogado (Evaristo de Moraes) e sem nenhum promotor por perto. As histórias contadas por terceiros, por mais interessantes que fossem para a minissérie, deixei de lado -penso que devemos ter um compromisso ético quando falamos de pessoas reais, principalmente se elas não estão mais presentes para contradizer.
Ao final, me sinto muito compensada com o reconhecimento da familia Cunha, aqui representada pelo sr Joel:
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