Apresentação da Sinopse de O CLONE

Essa é a introdução da sinopse de O Clone, entregue em 1999. Nos meus trabalhos, incluo sempre essa primeira página, que se propõe  demonstrar o interesse da história a ser contada. E uso sempre as citações para abrir, não só a introdução, mas todos os capítulos da sinopse.

se Deus não existisse, tudo seria permitido
Dostoievsky

O grande cenário de nossa novela é o século 21, o novo milênio.
Costuma-se dizer que o século 20 foi o século da ciência e da tecnologia. Essas áreas se desenvolveram tanto e tão ràpidamente, que a humanidade acalentou fantasias a respeito de que, no ano 2000, a ciência e a tecnologia seriam capazes de resolver todos os problemas e afastar os fantasmas que atormentam o homem desde seu aparecimento sobre a terra: as necessidades materias, a doença, a velhice, a morte.

Havia uma grande expectativa em torno dessa data, como se ela fosse o marco de uma nova era para a humanidade. Mas como todo otimismo tem o seu avesso, a chegada do ano 2000 atemorizou muita gente: profecias milenares indicavam essa data como o final dos tempos. Viria o apocalipse previsto pela Bíblia, por Nostradamus, pela Virgem de Fátima, por Rasputin, pela civilizaçao maia, pelos muçulmanos, enfim, por todos os profetas que habitaram a terra desde que o mundo é mundo. E aqui estamos, récem chegados ao novo século, ao novo milênio. O mundo não se acabou e nem conquistamos, através da ciência e da tecnologia, o paraíso terrestre. A novela trata de fazer esse inventário: o que mudou? para onde estamos caminhando?

O século 21 será, sem dúvida alguma, o século da engenharia genética. E, nesse momento, a questão mais polêmica, mais atual, nesse terreno, é o aparecimento do clone. A possiblidade de clonar um ser humano confere ao homem o poder de criar a vida, de tomar, para si, uma competência que sempre foi só de Deus. Põe, em suas mãos, o destino de sua prória evolução. O mundo inteiro se volta para as implicações religiosas e éticas desse fato. Além da clonagem, a engenharia genética de hoje também é capaz de alterar o gens, de modo a emprestar ou retirar, dele, características naturais. Se isso implica na possibilidade de poder eliminar doenças hereditárias, pode-se também, através dessa manipulação, acentuar ou eliminar caracteristicas de personalidade, como a agressividade, a passividade, enfim, qualquer das características humanas que já venham inscrita no código genético. Os riscos de uma tal realidade são óbvios e evidentes: que critério presidirá essa manipulação? Como se vai poder controlar a utilização política desse novo poder?

No “Admirável Mundo Novo” Huxley previu uma humanidade assim, robotizada, fabricada de acordo com as conveniências políticas de cada momento histórico. O que era uma fantasia da ficção científica, é hoje uma realidade palpável. Em todos os países, o governo, os religiosos, as instituições, discutem a questão, no sentido de tentar estabelecer os limites éticos dessas experiências.

Dentre todas essas conquistas da engenharia genética, a mais polêmica, a que mais instiga o imaginário popular, é o clone. As razões são óbvias: o clone é o homem criado pelo homem. Até hoje Deus foi o criador e todos os homens da terra as suas criaturas. A partir da clonagem, os homens serão ao mesmo tempo criadores e criaturas. Os novos deuses habitarão laboratórios e usarão jalecos brancos. Estaremos abrindo mão da infinita diversidade da natureza na construção do humano. O clone não se enquadra na idéia de familia que temos hoje. Não tem pai nem mãe e não nasceu do sexo, como aqueles que foram criados pela natureza: ele é a cópia, o xerox de um outro homem. Os religiosos discordam sobre o fato de que tenha ou não tenha alma. Uns acham que sim, outros juram que não. E todos se mobilizam ante a possibilidade de confrontar-se com o seu duplo, com sua própria imagem.

Mais uma vez retomamos um tema que já abordamos em BARRIGA DE ALUGUEL, em DE CORPO E ALMA, em EXPLODE CORAÇÃO: vamos falar das experiências humanas que não foram vividas pelas gerações anteriores à nossa. Vamos falar sobre como o avanço da ciência modifica a vida cotidiana do homem, colocando-o em situações absolutamente novas, para as quais ele não tem nenhuma referência no passado. Situações que ele deve enfrentar com um coração antigo, com todo um modo de sentir e de pensar inadequados a ela, e dentro de uma realidade social onde elas ainda não cabem.
Como nas novelas citadas, a ciência será pano de fundo. O que está em primeiro plano é a vivência emocionada de uma nova situação de vida, o confronto entre o clone e o clonado.O tema é atual, polêmico, capaz de mobilizar e provocar impacto. Ao mesmo tempo, em sendo tão novo, guarda ainda a magia das maravilhas apenas imaginadas pela mente humana.

Essa experiência atualíssima, que reverte todos os conceitos, todas as certezas que até agora tivemos sobre os mistérios de nossa própria origem, terá como contraponto os muçulmanos e suas tradições milenares. A religiosidade do oriente, sua fé, sua preocupaçao com o espírito, com a salvação da alma, estará em confronto com o materialismo do ocidente. O homem “submisso” a Deus, e o homem que buscar “submeter” Deus, tornando-se, ele proprio, criador.
Dentro desse quadro, vamos focalizar algumas caracteristicas desses nossos tempos: o excesso de individualismo, o misticismo, a avidez pelos 15 minutos de sucesso, a solidão das pessoas, as mudanças de comportamento que provocaram verdadeira inversão nos papéis tradicionais do homem e da mulher, de modo a sublinhar essa tensão do antigo com o novo, do revolucionário com o tradicional, de que se faz o tecido da modernidade.

A proposta é traçar um painel desse final de milênio, mostrando as incertezas e as esperanças com que atravessamos para uma nova era.
Convém registrar também que não vamos, propositalmente, diferenciar as correntes do islamismo, de modo a não tomar o partido de nenhuma delas. Assim, não se dirá se as personagens que representam o mundo muçulmano são xiitas ou sunnitas -essa é uma polêmica desnecessária para a novela, e estaremos atentos para evitá-la. A história deve ser contada de forma atemporal, não se deixando claro em que ano começa a ser contada.

Eu vi o ontem. Eu sei o amanhã
(inscrição no túmulo de Tutankamon-1.300 ac)

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