Desejo teve 16 capitulos, mas se querem saber qual foi o projeto mais difícil e trabalhoso de minha carreira, com certeza foi esse!
Porque falar de pessoas reais não é a mesma coisa que falar de personagens: há um limite ético. Não se pode entregar pessoas reais à imaginação, mesmo que elas não estejam mais aqui para contestar. E esse principio norteou o trabalho.
Contei a história como a compreendi -é uma tragédia. Nem vilões, nem herois, mas pessoas comuns, que impulsionadas por sentimentos conflitantes, acabam enredadas num drama que vai se intensificando, até que elas percam o controle sobre a situação e passem a ser como que arrastadas por uma força maior. A partir daí, não há desfecho possível, senão o trágico! Foi desse ponto de vista que escrevi Desejo.
Euclides e Saninha tinham sonhos diferentes e conflitantes: ele queria ser o intérprete de seu país, ela queria viver uma paixão. E essa incompatibilidade original é o estopim que prepara a tragédia.
HISTÓRICO
Eu tinha uns 15 anos quando ouvi essa história contada pela Laura, filha de Saninha e Dilermando. Laura era uma pessoa muito querida de minha familia. Bonita, sensível, recitava muito bem, e é assim que sempre me lembro dela: dizendo versos. A história de sua tragédia familiar me impressionou muito, e um dia quis escreve-la.
Li os livros mais importantes que trataram do assunto. As biografias de Euclides, o relato de Judith de Assis e o da familia Cunha, ouvi muitas pessoas que conheceram as personagens dessa história e, no decorrer da pesquisa, conheci Luís, aquele a quem Euclides chamou “espiga de milho do meu cafezal”. Estaria com uns 80 anos e ainda era um homem belíssimo, segundo diziam, tinha o porte do pai.
Mas não queria basear o meu trabalho nem no noticiário nem nos livros, que tomavam a defesa ardorosa de um lado ou de outro. Como historiadora, precisava trabalhar em cima de documentos. Assim, Desejo foi escrito a partir:
-dos autos do processo da morte de Euclides da Cunha
-inventário de Euclides da Cunha
-testemunho deixado por Euclides Filho: “A verdade sobre a morte do meu pai”
-processo da morte de Euclides filho (esse tinha desaparecido do Arquivo, de modo que só tive acesso a uma documentação esparsa, reproduzida em algumas publicações e, sobretudo, no livro escrito por Dilermando de Assis sobre o assunto: “Um Conselho de Guerra”.
-cartas de amor de Dilermando para Saninha ( arquivo da familia Assis)
-livros e jornais da época
CRITÉRIO
Desse modo, todas as situações contadas na minissérie são documentadas. Tive um cuidado especial com a figura de Saninha, só mostrando o que ela própria disse de si. Todos os acontecimentos que a envolvem foram descritos por ela, no longo depoimento que fez ao juiz, na presença unicamente de seu advogado, sem a pressão de nenhum promotor.
É um trabalho de que me orgulho muito, e foi uma grata surpresa o reconhecimento do sr Joel Bicalho Tostes (da familia de Euclides) ao jornal O Dia, quando do centenário da morte de Euclydes (o trecho da fita me foi dado pela reporter que o entrevistou):
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