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Culturas exóticas

livro Bianca

Escuto muito dizerem que algumas de minhas novelas abordaram “culturas exóticas”. Ainda que o termo seja preconceituoso e equivocado para definir qualquer cultura, de maior ou menor expressão no cenário mundial, no caso aqui estamos falando de muçulmanos e hinduístas, culturas presentes e atuantes na política e na economia do mundo em que vivemos.

Porque “exóticas”, então? porque são diferentes de nos. Isso tem nome: etnocentrismo. Vem do grego Ethos -conjunto de hábitos e crenças de uma comunidade- e de centrismo -centro. Trocando em miúdos: nossa maneira de ver e de viver é a correta, a lógica, está no centro. O que é diferente dela vai para a prateleira do “exótico”.

Bom lembrar que do ponto de vista de muitas outras culturas, os “exóticos” somos nos! que o diga Hollywood! 🙂

Por isso lembrei desse livro. Bianca Freire-Medeiros é professora da USP e foi minha pesquisadora em Caminho das Indias. Nesse trabalho ela fala sobre como Hollywood  nos retratou do ponto de vista do etnocentrismo da  cultura americana. Vale a pena ler e refletir.

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Caminho das Indias: o etnocentrismo em cena

Raj e Duda

A cena em que Raj diz a Duda porque não pode se casar com ela é um exemplo muito interessante de como as diferenças culturais possibilitam leituras equivocadas.

Como muitos indianos, Raj estudou na Inglaterra e tornou-se um empresário bem sucedido internacionalmente. Mas é um indiano, como um inglês continuará sendo um inglês, um americano um americano, um brasileiro um brasileiro, ainda que transite com traquejo pelo resto do mundo.

A visão etnocentrista do ocidente faz parecer que uma cultura diferente se “civiliza” quando em contato com a nossa -como se fôssemos o umbigo do mundo. Ledo engano!

O conflito de Raj é ter de optar entre a família e o amor. E essa opção é bem mais complexa dentro da cultura indiana. Optar pelo amor significa, para Raj, ser banido da família e da casta.  Um homem sem casta e sem família seria um pária social.

E como não temos nem castas nem a mesma configuração de família, lido pelos parâmetros da nossa cultura não há conflito aí: há cafagestagem. Não se pode supor que um empresário bem sucedido, um homem do mundo, não se case com a mulher que ama porque a família não quer. “A família se conquista depois, nascido o primeiro filho é certo que eles se dobrem. Assim costuma acontecer no Brasil, de modo que são esses os argumentos de Duda.

Quando Raj não cede, ela só pode supor que o motivo do rompimento seja outra mulher. E diz que perdoa, passa a borracha por cima, esquece a traição, desde que continuem juntos. Agora quem se surpreende é Raj: como é possível que possa ser tão fácil pra ela entender a existência de outra mulher na vida dele e não entender a importância de um rompimento com a família?

Eles estão falando de pesos e medidas diferentes. Nos somos individualistas. Nosso objetivo maior é a nossa realização pessoal. Para o indiano, é o equilíbrio do conjunto. Os desejos individuais devem se subordinar sempre a esse equilíbrio.

Por isso Ghandi diz que relutou muito em fazer sua biografia, porque nunca pôde entender que importância poderia ter a vida de um indivíduo.

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