Um jogo chamado probabilidade (artigo de Ilana Casoy)

O que mais ouvi no noticiário dessa semana foram comentários sobre a tal IMPUNIDADE. Passeatas, projetos, discursos políticos. E nenhuma ação concreta que ampare e fundamente um resultado verdadeiro.

A possibilidade de ser punido inibe muito mais os criminosos do que qualquer lei rigorosa que possa existir. Mais efetivo que o aumento das penas por crime cometido é a certeza de que vai ser punido.


Como vocês acham que um certo João, bandido conhecido e de longa ficha policial, decide se vai continuar na vida criminosa ou não? Imagino que ele faça como os grandes empresários: uma boa análise de risco, ou seja, depois de ter uma idéia genial, prepara um “projeto” com todos os passos necessários para alcançar seus objetivos, levanta o risco de obter sucesso ou não e então decide se vai agir ou se desiste. João tem “sorte”, mora no Brasil. O crime compensa.

Se decidir tirar a vida de alguém, suas chances de êxito, matar sem que nunca a polícia o identifique como autor, são de 94%*. Se João morar no Rio de Janeiro e decidir roubar, suas chances de sucesso são de 97%**. Desconheço números mais otimistas que esses em qualquer área de mercado atualmente. Não existe negócio melhor em nosso país, com maiores chances de “retorno de investimento x risco”. Se João morasse nos EUA ou Europa, suas chances de sucesso em carreira criminosa estariam reduzidas para 20% a 30%. Na Inglaterra, a probabilidade dele ir para a cadeia seria de 90%. Pouca gente enfrenta um risco desses!


Como reduzir nossa taxa de criminalidade? Hoje não tenho mais dúvidas que o aumento das penas e da punição como arma de combate contra o crime é risível. Ninguém leva em conta o tempo que vai ficar na cadeia se agir criminosamente, simplesmente porque só uma mínima quantidade de crimes é elucidada.


É hora de investir na capacitação da polícia, civil, militar e científica, com novas técnicas de investigação, e equipá-los com uma nova geração de instrumentos. Bancos de dados a disposição, computadores de bordo com acesso a esses dados, banco de digitais e DNA como identificação em nível nacional para confronto, contratações mais que adiadas de novos policiais e peritos.

Só assim nossa esperança ficará acesa, de que João, ao fazer sua análise de risco de nova “empreitada”, abandone a idéia porque realmente pode acabar preso. O crime não compensará. E então podemos discutir as penas impostas pela lei.
Ilana Casoy

*( Fonte Revista Perícia Federal Ano IX – Número 26).
** (Fonte Pesquisa da UERJ – sociólogos Ignácio Cano e Taís Duarte)

16 Responses to Um jogo chamado probabilidade (artigo de Ilana Casoy)

  1. Danielle Faria agosto 3, 2011 at 4:07 pm #

    É absurdo e assustador saber que pela porcentagem o crime é um “bom” negócio, o que joga por terra aquele dito que sempre ouvia dos meus pais: “o crime não compensa”. Bom, o cálculo diz o oposto… Que compensa sim! E na vida real, assim como na matemática, existem muitas pessoas frias, que baseam suas condutas no que traz ganhos e no que traz prejuízos… Nem preciso escrever qual caminho essas pessoas vão escolher, pois o artigo já deixa isso claro.
    Parabéns pelo artigo Ilana!
    Glória, saber desses números só causa repulsa, mas a verdade tem essa mania de não se maquiar…Quem vive tentando escondê-la somos nós, mas ela aparece!
    Espero que esse contexto mude.
    Obrigada por disponibilizar artigo aqui e divulgá-lo no twitter.
    Abraços!

  2. Neli Faria agosto 3, 2011 at 4:53 pm #

    Perfeita análise.Não precisa ser uma pena exacerbada,mas que o criminoso tenha medo da lei.A tendência é a criminalidade aumentar.Desde a alteração da lei das Execuções,em 1984 o aumento do crime foi exagerado e agora aumentará mais com a entrada em vigor do novo CPP.

  3. Helio Thompson agosto 3, 2011 at 5:48 pm #

    Triste essa probabilidade, mas faz sentido. Bom mesmo seria se todos tivessem a consciência que o crime jamais compensa.

    Gloria, postei esse escrito no meu Blog. Receba-o como um carinho, um agrado.
    Espero que você goste.

    Lembranças

    O que ainda me pego lamentando,
    é o desaparecimento de algumas pessoas da minha vida.
    Por mais que eu tente aceitar essas perdas,
    ficam as saudades, as lembranças.
    Apesar de todas as possíveis causas,
    seria maravilhoso se a amizade e o amor sempre sobrevivesse.
    Afinal, quantas trocas, quantos momentos passados?
    Inevitavelmente faço um apanhado desses fatos,
    e quando vejo não ter mais essas pessoas por perto,
    quero acreditar que elas estarão sempre guardadas no meu peito.
    Por isso, é preciso valorizar cada momento da vida,
    porque um dia ele acaba.
    E acabando, é bem melhor não lamentar por nada que passou,
    mas lembrar com alegria
    por tudo o que pôde ser vivido.

    Helio Thompson

  4. Paula Teixeira agosto 3, 2011 at 6:41 pm #

    Nossa estrutura social incita a reincidência. Sem mais.

  5. Renata Rocha agosto 3, 2011 at 7:25 pm #

    Perfeita a análise da Ilana.

    Hoje mesmo estava pensando sobre a triste realidade em que estamos vivendo, subjugados por criminosos e sem a esperança de melhoras.
    Não estava analisando do ponto retratado pela Ilana, que é o da investigação, mas sim no depois, quando descobre-se o bandido. Mas e aí, o que acontece?! Nada, nem presos não estão mais ficando, a situação é mais do que absurda, é ridícula, e o pior, me sinto completamente impotente. Sabemos que é o cúmulo, mas efetivamente, o quê, nós cidadãos comuns podemos fazer???

  6. Fabiano Figueiredo agosto 3, 2011 at 8:41 pm #

    Concordo plenamente com ela!

  7. Julia Laks agosto 3, 2011 at 9:11 pm #

    Penso muito sobre o assunto. Gostei de ler o artigo.
    Bjs

  8. Artes da Marga agosto 4, 2011 at 6:26 am #

    Oi Glória!
    Criminosos planejam bem porque as leis do Brasil são vergonhosas comparadas à outros países. Saudades de sua próxima novela na minha tela. Não esquece do Daniel Marques rsrsrs
    Bjs da fã

  9. Sandra McPherson agosto 4, 2011 at 8:42 am #

    Concordo com a Ilana,no Brasil o criminoso deita e rola do jeito que quiser pois a lei e muito injusta,o que mais me irrita,e quando uma pessoa e condenada a 19 anos ou mais e porque ja passou “digamos” “uma temporada” na cadeia ja pode sair,alguns usam os menores de idade pois alguns dias eles ja estarao de novo na rua,em minha opiniao se e condenado a tantos tem que ficar preso por todos os anos a qual foi condenado.
    Aqui na Gra Bretanha mesmo sendo uma crianca que cometeu o crime,eles sao julgados e vao pra cadeia,se e que voces se lembram do caso do Boulger Killers,os dois meninos ambos de idade de 10 e 11 anos que matou uma crianca de 2 anos de idade,foram pra prisao e estao pagando ate hoje pelo que fizeram.
    Nosso Brasil,precisa limpar estas leis antigas e se mirar nas leis europeias/americanas que funcionam e intimidam muita gente a cometer um crime,precisamos nos sentir safe quando saimos para passear com nossas familias,tomar um chopinho com os amigos sem ter medo de muita gente ma e sem coracao.
    Eu amo o meu Brasil,so queria que as leis fossem bem rigidas.

  10. Deise agosto 5, 2011 at 9:51 am #

    AS LEIS SAO UM ESCREMENTO ….
    SOU CONTRA A PENA DE MORTE PQ AS AUTORIDADES SENTIRIAM-SE A VONTADE PARA FAZER EXECUÇOES..
    MAS TEM CRIMES QUE A MORTE DO BANDIDO É POUCO

  11. Lula Portugal Jr agosto 5, 2011 at 3:06 pm #

    Certa vez publiquei no mural do meu facebook como a novela ‘O Clone’ serviu para melhorar a vida de seres humanos ao abordar a angústia do consumo de drogas através de uma narrativa dramatúrgica desenvolvida com etiologia (a origem do problema). A novela em sua totalidade é maravilhosa (a melhor que já vi), mas a descida ao inferno da dependência química dos personagens Mel e Nando se coadunando aos ditos de Lobato nas sessões de psicanálise e aos “contraplanos” reais de pessoas em tratamento que falavam para a câmera são um show à parte. Perdoe-me Gloria, mais achei o texto de Ilana simplório. Falta-lhe um olhar pro ‘fundo’, um olhar para origem do problema abordado. Um olhar repleto das subjetividades que você teve em ‘O Clone’ para mostrar o consumo de ‘narcóticos’ por jovens de classe média. O problema da criminalidade no Brasil é prisional, mas não é só, nem principalmente prisional. O que o horror criminal nos desperta é mais grave. Ele é sinal de que o sentido do valor da vida, entre nós, vem mudando numa velocidade vertiginosa.

    Aprendemos, ao longo do tempo, a dizer que a vida deve ser respeitada, por se tratar de “um bem em si”. Poucos, no entanto, aceitariam a idéia de que vida mantida a qualquer preço seja, de fato um Bem. Viver sem poder aspirar, mesmo de modo remoto, ao bem-estar; viver sujeito à humilhação, à indignidade ou à miséria físico-social, acaba por retirar da vida seu caráter de bem precioso. Por essa razão também é fácil detectar porque a vida nos presídios é um doutorado para a multiplicação criminal.

    O tráfico de drogas, os latrocínios, os seqüestros, as saidinhas bancárias, os assaltos nas sinaleiras e residências, os estupros, etc, no Brasil são o sintoma escandaloso de um estado de coisas que, se não alcança os piores níveis de estupidez humana, se aproxima da demência. Será que de fato alguém acredita, por exemplo, que o “problema do tráfico de drogas” está na Colômbia, nos morros cariocas, nas favelas paulistas, na corrupção policial, ou na falta de investimento nas polícias civil, militar e científica? Será que jamais nos perguntamos se o “o problema da violência” se instalou no lugar de “problemas” de quem perde o interesse por tudo além da fronteira de nosso bem-estar físico ou sentimental?

    Moralismo piegas, dirão os porta-vozes da cultura do cinismo, esse mesmos que tentam ridicularizar qualquer anseio ou iniciativa de um mundo mais justo. Lembremos então: “moramos num país com a terceira maior desigualdade social do mundo”. Não existe “problema de drogas no Butão, assim como não existiu “problema” de assaltos diários nas sinaleiras no Ocidente enquanto estivemos preocupados com o futuro, com a história e com a construção de uma vida mais digna para todos.

    Desejo de ser criminoso não está inscrito nos genes nem é uma tendência latente do psiquismo, pronta a explodir quando aparece uma oportunidade e o dinheiro está à vista. Desejo de ser criminoso surge na maioria das vezes quando o trabalho avilta quem o faz, não a obstante gorda remuneração; quando ser honesto porém paupérrimo é uma vergonha ante o olhar do ‘Outro’ (‘o inferno são os outros’, disse Sartre); quando a vida, sob o peso da competição e da ganância, começa a estalar, quando o medo (ou a frustração) de não estar entre os que podem ter o que querem faz da excitação pelo crime o substituto caricato do sucesso invejado; quando, enfim, se aprendeu que o “fudido” sujo, feio, mirrado, cheio de cáries, ignorante, é no máximo candidato a R$ 150 ou R$ 250 por mês, logo uma vida que interessa tanto quanto a pulgas da Groenlândia.

    Como disse Arendt, “onde os melhores perdem a esperança e os piores o temor”, poucas saídas restam, entre elas o crime. A violência é apenas uma conseqüência disso. Volto a dizer o que já postei aqui: sentido de vida não se improvisa; valor da vida não se compra pronto. Ou voltamos a crer que somos mais do que nossos pequenos prazeres ou alimentamos nossa moral vampiresca, até que um raio de sol venha finalmente dar cabo de vidas ocas que amesquinham a grandeza que só a vida de amor pode exibir.

    Eu gostaria muito querida Gloria, de ver em sua próxima novela, uma trama paralela, uma abordagem, uma reflexão, sobre “a violência nossa de cada dia”.

    Um bj. Que Deus continue te iluminando!

  12. Artes da Marga agosto 7, 2011 at 7:33 am #

    Vim aqui só prá te desejar um excelente domingo. Sou sua fã.
    Bj

  13. Beatriz agosto 8, 2011 at 12:44 pm #

    Então Glória boa tarde, seu trabalho é sempre maravilhoso.
    Eu tenho 24 anos, estudo medicina, e sempre fui fã de Daniella Perez desde os 5 anos ( eu tinha essa idade quando ela se foi), e hoje tive a grande oportunidade de falar sobre Daniella para os pequeninos pq no que depender de mim ela NUNCA morrera… e como o nome dela mesmo diz Deus é seu juiz … e um dia ele vai julgar toda essa impunidade…
    Fique com Deus mais uma fã de seu blog… Bia

  14. Anabela agosto 10, 2011 at 6:17 pm #

    Glória, não é um só factor que leva alguém a cometer um crime, mas vários.Um deles é o de achar que vale a pena.Não ser punido é, na minha opinião, uma maneira de achar que vale a pena.Só o facto de se crescer num local/zona, seja lá onde for,onde nos ensinem, que o crime compensa, é claro que essas pessoas acharão isso normal.Esta questão não é assim tão linear…. o problema é que, na maioria das vezes, uma pessoa pode determinar a vida da outra …..
    Não basta denunciar, é preciso agir.E um agir de todos.
    Hoje, é um dia triste.Daniela poderia estar cá.Mas alguém decidiu o contrário.Que raiva!!!! Poderá perguntar:
    ” Como alguém, que nunca viu a outra pessoa ganha afeição?”
    A resposta, no meu caso, está relacionada com o facto de que nós, o público, permite deixar entrar em nossas casas alguém por quem ganha afeição,admiração. Saudades, Daniela!!!!!

  15. Maria de Fátima Jacinto agosto 13, 2011 at 5:28 pm #

    Acabei de lançar o meu primeiro E-book, nele falo a nossa alma de mulher que aprenderam desde crianças a suportar os “sacrifícios em silêncio”, e a sermos “boazinhas” e as consequencias que tudo isso trouxe para todas nós….
    Tenho uma longa luta contra a violência doméstica, da qual fui vitima passiva por mais de 12 anos, até acordar e dar a volta por cima. Agradeço sinceramente a sua visita Gloria,…
    Beijos em sua alma iluminada
    http://araretamaumamulher.blogspot.com/

    http://umamulher.loja2.com.br/

  16. Joao Batista Santos agosto 17, 2011 at 6:25 pm #

    Na semana passada, o Lobato do Clone, recitou o Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa… Acho que esse poema sintetiza o pensamento de uma grande parcela do povo Brasileiro.
    Uns acham o máximo, ver o Brasil entrar para o “jet set” internacional e se gabam do tal “jeitinho Brasileiro”…
    Tudo bem, hoje podemos dizer que somos emergentes, a oitava economia do planeta, e que a nossa terra, além de ser a maior da américa do Sul, é também linda e maravilhosa… E dai?… Sei de muitos países pequenos e pobres, que dão show de cidadania e educação.
    Outra coisa que não engulo, é o lema: “Tenho orgulho de ser Brasileiro”… Orgulho é um sentimento perigoso, porque ele cega e dá abertura para o ufanismo sem sentido.

    Como podemos ser uma das potencias mundiais, se ainda não resolvemos os nossos problemas caseiros, tipo: Impunidade, insegurança e corrupção?

    Acho que devemos ser menos orgulhosos e mais humildes.
    O dia que encararmos os nossos defeitos, aquela frase do saudoso Cazuza, cairá em desuso:
    Brasil mostre a sua cara!!!!

    BjOs

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